A noite fria e escura estava ali, ao meu redor. Por mais que eu tentasse, por mais que eu quisesse... Não conseguia...Sentia o cheiro da Morte pairando ali...Bem no meu quarto...Tentei me levantar...Mas, não consegui.Talvez por você... Ou por mim mesma...Mas, não consegui.Enquanto sentia a Morte penetrando em minhas veias... Percorrendo meu corpo, e penetrando na minha alma...Enquanto aquele cheiro asqueroso crescia cada vez mais...Eu pensei em você.Pensei... Naquela tarde de verão, quando nos conhecemos; eu estava ali, com onze anos de idade, e você chutou a bola no meu rosto, no cume da história que eu lia! Senti vontade de te esganar! E você, ali... Rindo de mim! Depois, obviamente, perdi o controle e "parti para cima de você”... Quase sorri quando essa cena me veio a mente...Mas, a Morte e seu cheiro não permitiram...Depois de você estar todo esfolado e "roxo", e eu com uma enorme hematoma no braço, você pediu desculpas e sorriu; sorriu daquele seu jeitinho de sempre...Jeito meigo e tenro que eu sempre amei...Apesar de não admitir...Até agora.Depois das férias, você estava na minha escola, tinha se mudado de escola, e eu sentei do seu lado... Depois de alguns dias de nos ignorarmos...Não resistimos...Sei que você me amou...Só que não sabia como dizer! Anos se passaram... E a amizade crescia...E cada um de nós mudava...Tanto de gosto e jeito, como fisicamente...Viramos inseparáveis, nem mesmo os nossos namoros com outras pessoas atrapalhava; ao contrário; nós nos apoiávamos, dando força pra cada um de nós continuar... Nos consolando.E foi aí... Quando eu completei dezessete anos...Na minha festa....Você me beijou! Aquele beijo doce e amargo, um beijo inesquecível, que faz você sentir vertigem e como se estivesse pisando no céu... Como se fosse o primeiro beijo. Fiquei atordoada, você olhou fundo nos meus olhos... E o beijo acabou! Disse que ia embora... Que talvez não voltasse mais...Como aquilo doeu em mim! A partir dai à vida começou a se esvair de mim... A partir daquele momento. Você não disse pra onde iria... Simplesmente foi embora, com olhar de quem carregava aquilo a muito tempo, com olhar satisfeito.Ninguém havia visto nada.A dor passou a me consumir cada vez mais... E apenas dois messes depois recebo um convite de casamento...Do SEU casamento."Ele quer me matar!"- foi o que eu pensei-"Talvez fosse melhor ele me esfaquear...Não doeria tanto."Eu rasguei o convite em pedacinhos, bem miudinhos...E chorei...De dor, ódio... E amor.Tranquei-me no quarto, durante três dias...Sem água ou comida. Hoje é o quarto...O dia em que faz seis anos que eu te conheci. Imagino o choque em meus pais, saíram dois dias antes de eu me trancar...Vão voltar e achar a filha morta!É uma injustiça com eles...Mas, pra mim não.Já deixei um bilhete, logo após eu começar a chorar, esclarecendo os meus atos...o que aconteceu e o porquê de eu ter tomado essa decisão.É triste.Eu sei.A morte já me capturou! Não é tão má. É boa e doce...Ela me acolheu e sorriu tristemente..."Queria que não tivesse que ser assim"-ela disse.Olho ao redor...O meu quarto bagunçado e em desordem...Como sempre...Lugar onde estudávamos juntos...Em cima da cama: papéis, lenços...e o meu corpo frio e gélido...Encolhido e de olhos fechados...Como se eu estivesse dormindo, para sempre. Espero que você não venha me ver, não novamente...E que também não leia o bilhete que deixei, antes de morrer.Mas, eu sei que não vai ser assim, vai ser justamente ao contrário.Mas, isso não é mais assunto meu...Não...Isso, agora é assunto daqueles que abraçam a vida velozmente e não a largam mais! É assunto daqueles que amam a vida...E não meu."Vamos, tire-me desse lugar cheio de lembranças ruins"-peço."Claro"-Ela responde.Caminhamos para fora de casa... Está nevando, e eu não sinto mais frio. Vejo meus pais chegando... Tenho vontade de gritar e lhes avisar que morri...Mas, nem um som sai da minha boca.Passamos por eles, que nos ignoram."Não podem nos ver" - penso.Morte me carrega por mais alguns instantes... E então vejo uma enorme esteira...Cheia de luz, ela leva para algum lugar infinito e bom. Sinto isso.Ela me coloca deitada ali. Sou carregada para o infinito e a paz... Mas, não a tempo suficiente de ouvir minha mãe gritar de dor...Eles já leram o bilhete."Adeus"-murmuro.E acabou. Minhas lembranças vão sumindo... Minha consciência desaparecendo...E uma imensa tranqüilidade me cobre...A não ser pela parte que nunca vai te esquecer...Eu sempre irei te amar... Mesmo após morrer!
FIM
